Vida em Flor

Pessoas queridas!

Estou muito feliz de compartilhar com vocês um sonho sonhado já há algum tempo, e que agora finalmente ganhou forma.

Compartilho com vocês a Vida em Flor, página do facebook onde divulgo meu trabalho como doula e educadora perinatal, e também conteúdo de qualidade relacionado a gestação, parto e maternidade. Para quem gosta do que compartilho nessa rede social sobre esses assuntos, curta a página que vai ter coisa legal por lá!

Vale a pena também dar uma olhadinha no site: vidaemflor.com

Lá organizo as propostas dos trabalhos que realizo e também um blog (vidaemflor.com/blog) com textos escritos por mim. Já tem assuntos interessantes no forno e que divulgarei em breve!

Super obrigada a todos vocês que me incentivaram a seguir esse caminho, em especial às gestantes amigas e conhecidas que me procuram em busca de informações e opiniões. Continuem procurando, adoro!

A história do parto da Melina

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Registros da evolução da gestação com 5, 6, 7 e 8 meses. Fotos por Natalia Brasil.

Registros da evolução da gestação com 5, 6, 7 e 8 meses. Fotos por Natalia Brasil.

Quero falar sobre o parto da Melina. Mas falar sobre o parto dela significa falar sobre muitas outras coisas. Vai ser longo, já aviso.

Pra entender um pouco do que vem pela frente, preciso dizer que a chegada dela nesse mundo envolveu um grande desejo de ouvir a minha intuição. Eu já queria a segunda gravidez muitos meses antes dela acontecer de verdade, mas devido à amamentação eu ainda não tinha voltado a menstruar. Quando o André já tinha quase 14 meses, tive um escape, nada parecido com menstruação, mas comecei a acompanhar a temperatura basal, como se fosse um ciclo menstrual. Trinta dias depois, sem padrão de ovulação, tive algo mais parecido com menstruação, porém em pequena quantidade. Era dois de junho. Lembrei da DUM da gestação do André, que tinha sido três de junho, dois anos antes, achei a coincidência curiosa, e pensei: nesse ciclo eu ovulo. Talvez engravide. Devo ser daquelas criaturas que entram no cio uma vez no ano. A sensação dessa possibilidade era tão forte que fez surgir esse texto, escrito um dia antes do início do meu curso de formação como doula.

O curso foi um capítulo à parte na minha vida. Muito mais do que uma formação, ele representou pra mim um resgate do feminino, o contato com as histórias de outras mulheres, com suas feridas, com a busca pela cura. Um portal se abriu. Não dá pra descrever a energia que circulou ali.

Foi inundada dessa energia feminina que, 15 dias após o fim do curso, eu ovulei. E engravidei. Não tinha espaço pra pensar que eu carregava outro ser que não uma menina. Apesar disso, tínhamos optado por não saber o sexo até o nascimento, e mantivemos esse desejo até as 34 semanas de gestação.

Antes dessa 34a semana teve 10 semanas de história em que a Melina ainda era o Segundinho, que eu não contei ainda e que merece uma volta no tempo. Avisei que a coisa toda seria longa.

Era fim de novembro e eu sentia chutinhos suaves na minha costela direita. Comemorava internamente carregar um bebê que já ensaiava se posicionar de cabeça pra baixo pra nascer. Sim, eu sei muito que a apresentação do bebê assim tão cedo na gravidez não quer dizer nada. Mas, pra mim, dizia. Até que com 24 semanas, no ultrassom morfológico, uma das primeiras coisas que o médico falou logo que começou o exame foi: “o bebê está sentado”. Oi? Esse bebê aqui dentro sentado? E os chutes na costela? Bom, é que os pés estavam na cabeça.

Sim, sei muito também que bebê pélvico nessa idade gestacional é motivo zero de preocupação. Que tem milhões de espaços e líquidos e tempos pra ele dar todas as cambalhotas do universo ali dentro e ficar cefálico pro parto. Mas, por algum motivo, aquilo me afetou um pouco. Pareceu um diagnóstico de algo que já me preocupava mesmo antes de engravidar. E se estiver pélvico, vou conseguir com que o meu desejo de parir seja respeitado? Agora tínhamos tirado o “se”, era um fato. Estava pélvico. Era cedo pra me preocupar, mas estava pélvico.

E por muitas semanas eu não me preocupei muito. Sentia rebuliços, continuava sentindo os chutes na costela direita, e o padrão de movimentos era muito parecido com o da primeira gestação, de bebê cefálico do lado esquerdo da barriga. Minha convicção de que havia ficado cefálico só aumentou quando senti que o bebê, que antes se amontoava do lado direito da barriga, passou pro lado esquerdo e lá ficou. Os locais dos movimentos me lembravam tanto os da primeira gestação que assumi que a posição do bebê era a mesma. Bem, exceto por essa coisa dura aqui na costela esquerda.

Às 30 semanas, em consulta com a obstetra, na palpação ela logo disse: está sentado. Frustração. Mas tem milhões de espaços e líquidos e tempos. Sei. Mas já está desse jeito há várias semanas. Me pareceu bem confortável essa posição pra que ele procurasse outra. E, no mesmo dia, tive consulta com uma das enfermeiras obstetras que nos atenderia em nosso parto domiciliar e, se ela não tivesse lido no meu cartão de pré-natal que o bebê estava pélvico, diria que ele estava cefálico pela palpação. Colocou minha mão na suposta cabeça, na pelve, e pude sentir. Sim, era uma coisa bem redonda e grande. Poderia ser mesmo uma cabeça.

Me apeguei a isso por vários dias. Sentia a coisa grande na pelve, a outra coisa grande na costela esquerda, a coisa lisa ao longo do lado esquerdo da barriga, os chutinhos na costela direita, e com isso podia visualizar um bebê lindamente cefálico.

Nessa mesma época senti mais uma mexeção, a barriga cresceu um tanto, os chutinhos na costela direita passaram a pisadinhas geralmente-suaves-mas-nem-sempre na minha bexiga, e a coisa grande e dura na minha costela esquerda se mostrou visivelmente uma cabeça. Com 32 semanas, eu não tinha dúvida alguma de que carregava um bebê pélvico.

Mas tem milhões de espaços e líquidos e tempos. Sei. O bebê sabe também. Sabe tanto que por vezes ele se mexe freneticamente e a bola dura vai parar lá do lado direito, perto do umbigo. Fica lá um tempo e volta pra posição em que já está há tantas semanas. Me parece realmente que ele tenta encontrar outra posição, mas acaba voltando. Não posso chamá-lo de preguiçoso ou acomodado. Sei que não é.

Eu sei que é cedo pra preocupação, mas parece um medo se concretizando. Um medo que surge de cogitar fazer algo tão desestimulado e criticado que é parir um bebê pélvico. Desde que me dei conta da possibilidade de ter um bebê pélvico, pensei: vai ser parido, mas quase ninguém vai saber que nascerá de bunda até que nasça. Já me bastam os desconhecidos que vêm me chamar de louca e irresponsável pelo primeiro parto – bebê cefálico, e uma gestação de risco habitual –  ter sido domiciliar. Quero parir em paz, sem pitacos.

Às 33 semanas, abracei a possibilidade do parto pélvico e até me empolguei com ela. Parei de ter pesadelos com minha barriga sendo cortada. Parei de pensar na foto de um bebê decapitado que uma infeliz me mandou certa vez numa discussão em que eu defendia o direito da mulher querer ter um parto pélvico. Mentalizei que eu queria parir, e que esse bebê queria nascer. Seu desejo de vir ao mundo é tão forte quanto o meu de tê-lo comigo, e isso é suficiente. Se a apresentação dele tem algum motivo, eu não sei, nem me importa mais saber.

Comecei a pensar nos desdobramentos disso tudo. O parto, já programado para ser domiciliar, seria hospitalar. Mas tudo isso era gerenciável, nada parecia realmente preocupante. Confiei, aceitei, e reforcei dentro de mim a primeira regra que a maternidade me ensinou: não temos controle de nada. Podia virar ou não, podia nascer em casa ou no hospital.

Com a certeza de que queria parir e isso era tudo o que importava, chegou a 34a semana e a bifurcação que ela apresentou. Até hoje não sei explicar muito bem o que aconteceu. Sei que a partir daquela semana o cansaço me inundou, a cabeça não conseguia se concentrar no trabalho, o corpo não conseguia ficar nove horas por dia sentado com apenas pausas pra ir ao banheiro. As contrações de treinamento ficaram muito fortes e frequentes, e só davam trégua quando eu deitava. Eu sentia uma necessidade de me conectar com o bebê, com a barriga, com essa experiência de gestar que não ia demorar pra chegar ao fim. Além disso, a proximidade do parto, e as tantas incertezas que ainda o cercavam, fizeram surgir em mim a vontade de ter a única certeza que eu podia ter naquele momento: o sexo do bebê.

Descobrir (e confirmar) o sexo naquele momento foi lindo e emocionante. Foi o que eu precisava pra curtir um pouco a gestação antes de me preocupar oficialmente com a apresentação pélvica. Digo oficialmente pois todas as pessoas que estavam me assistindo (obstetra e enfermeiras) diziam que até as 36 semanas tinha grandes chances do bebê virar sozinho, e como tinha muito espaço ainda, mesmo que virasse e ficasse cefálico, poderia virar de novo e voltar a ficar pélvico.

Completei 36 semanas de gestação com a Melina ainda pélvica, com o corpo ainda cansado, com contrações ainda fortes e frequentes, e resolvi tirar a licença maternidade. A partir dali, meu foco era a gestação e o parto. Queria fazer o possível pra que ela virasse, e também descansar quando o corpo pedisse.

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Pintura de barriga feita pela Equipe Hanami, às 36 semanas

Pintura de barriga feita pela Equipe Hanami, às 36 semanas, com a Melina pélvica. Fotos de arquivo pessoal.

Fiz de quase tudo pra ajudá-la a virar. Preenchia meu dia com exercícios e descanso intercalados. Engatinhei, fiz inversões, tomei homeopatia, caminhei, fiz hipnose. E, acima de tudo, conversei muito com a Melina. Nessa hora a decisão de saber o sexo se mostrou muito acertada. Nem tanto pelo sexo, mas principalmente por poder conversar com o bebê dentro de mim chamando-o pelo nome.

Dizem que bebês pélvicos estão querendo chamar a atenção da mãe pra alguma coisa. Não sei se acredito nisso, mas de qualquer forma aproveitava as conversas com a barriga pra falar de tudo que me vinha à tona quando pensava no fato dela estar pélvica. No fim das contas, pra mim, ela estar pélvica ou cefálica só mudava uma coisa: o local do parto. Expliquei pra ela que gostaríamos muito que ela nascesse em casa, pela autonomia e respeito aos nossos desejos que teríamos tanto no parto quanto com os primeiros cuidados com ela. Mas, pra isso, ela deveria estar de cabeça pra baixo. Sei que parto pélvico domiciliar pode ser uma opção em algumas circunstâncias, mas não era uma opção nossa. Já havíamos decidido que, se ela permanecesse pélvica, nasceria no hospital. Falei pra ela também tudo o que queríamos evitar indo ao hospital. No hospital estaríamos sujeitos a protocolos, regras, e até infecções. Não era o nosso ambiente, com nossas coisas, nossos cheiros, nossas bagunças. Mas hospitais podem ser necessários, e se por algum motivo precisássemos de uma assistência hospitalar, pra mim ou pra ela, eu também aceitaria isso, e gostaria que ela me ajudasse a tomar as decisões necessárias para que essa assistência fosse a melhor possível.

37 semanas completas, Melina ainda pélvica. Fizemos um ultrassom para avaliar, entre outras coisas, a possibilidade de fazer uma versão cefálica externa. Pelos ultrassons anteriores, eu sabia que a placenta estava anterior e do lado direito do útero. Como eu sentia que as costas da Melina estavam exatamente ali também, pedi pra que o médico olhasse com carinho ali, pra ver se daria pra manipulá-la evitando a placenta. Ele analisou bem a placenta, e viu que tinha um lobo acessório, um pedacinho da placenta que estava “fora” da massa principal. Esse pedacinho me levou de volta ao parto do André.

No parto do André, durante a saída da placenta eu tive uma hemorragia, que foi controlada em casa mesmo. Mas isso não foi tudo. Dezesseis dias depois, tive outra, e dessa vez fui ao hospital. Já contei a história toda aqui, mas resumindo, a suspeita é de que tenha sobrado um pedaço da placenta, que causou essa hemorragia tardia. Mais do que um pedaço da placenta, pode ter sido um lobo acessório, como esse que apareceu nesse ultrassom, já que a placenta saiu aparentemente inteira.

Luzes vermelhas piscaram por todos os lados, abri todos os olhos e levantei todas as orelhas que tenho. Tecnicamente falando, esse lobo acessório não representava nenhum problema, e não significava que não ia sair. Mas fiquei pensando, num parto domiciliar, se não saísse, eu teria que ser transferida pra um hospital, provavelmente com uma hemorragia. A simples possibilidade disso acontecer mexeu muito comigo. Pra mim, o propósito de ter um parto domiciliar era ficar em casa. Não fazia muito sentido parir em casa preocupada com a possibilidade de ser transferida e não poder curtir uma das coisas boas de um parto domiciliar, que é justamente ficar no ninho depois de parir. Tenho que dizer que essa preocupação foi uma coisa minha. Lembra da intuição que eu citei no começo do relato? Conversei com alguns profissionais e nenhum deles viu qualquer problema nessa condição da placenta e na relação disso com o meu histórico, nem contra indicou um parto domiciliar. Quem viu problema fui eu. Sensação de segurança no parto é fundamental. Assim como no primeiro parto eu não conseguia me enxergar parindo num hospital por não me sentir segura e acolhida num ambiente hospitalar, nesse eu percebi que não me sentiria segura em casa com a possibilidade, mesmo que pequena, de ser transferida após o parto. E então, independente de bebê pélvico ou cefálico, às 37 semanas eu decidi que esse parto seria hospitalar. Marido me ouviu e me respeitou, embora também, como eu, não estivesse feliz com uma ida ao hospital.

Dois dias depois dessa decisão, optamos por fazer a versão cefálica externa. Tive muito medo e quase não aceitei fazer. Tive medo da possibilidade muito pequena de acontecer uma intercorrência que me levasse a uma cesárea, às 37 semanas de gestação, fora do trabalho de parto, sem esperar o tempo da Melina. Conversei com ela e pedi pra que, se a versão fosse trazer perigo, que ela não permitisse, que não estivesse numa posição favorável, que não virasse. Caso contrário, queríamos muito que ela ficasse de cabeça pra baixo pois isso ofereceria uma segurança maior no parto, além de ficar bem mais confortável pra ela e pra mim.

Fizemos a versão e tudo correu bastante bem. Em alguns minutos, a Melina estava de cabeça pra baixo pra sempre. Não foi agradável, doeu bastante. Mas foi bem rápido e recompensador resolver em poucos minutos uma novela de três meses. Senti que estava finalmente pronta para o parto, já que tanto o local do parto quanto a apresentação dela deixaram de ser uma questão não resolvida.

Pintura de barriga feita por mim, às 38 semanas

Pintura de barriga feita por mim, às 38 semanas, com a Melina cefálica. Fotos de arquivo pessoal.

Alguns dias depois da versão começaram os pródromos mais longos da história. Quase que diariamente eu achava que o trabalho de parto estava começando. Eram cólicas e contrações bem intensas e frequentes, mas sem ritmo nem dor. Foram duas semanas disso e nada da coisa engrenar. Eu já estava ficando meio apavorada com a possibilidade de continuar assim por mais uma ou duas semanas. Meu corpo já estava no limite do cansaço, porque apesar de conseguir dormir, era um sono muito leve, com mil acordadas pra ir ao banheiro e pra encontrar uma posição confortável pra barriga.

Nos dois dias que antecederam o parto, como mágica, eu consegui descansar bastante e tirei energia de sei lá onde. Consegui preparar algumas coisas que faltavam pro aniversário do André na escola, que seria na semana seguinte, e tentei fazer alguns planos pra preencher o tempo e enganar a ansiedade.

Sexta-feira, 13/03/2015, 39 semanas e 3 dias. Num dos xixis da madrugada, perdi um bom tanto do tampão. Já tinha perdido um pouco nos dias anteriores, e como não significava muita coisa, deixei pra lá. Os restos do tampão foram vindo pela manhã. Ainda pela manhã, fiz as unhas, fiz um bolo, almocei. Pra tarde eu tinha planejado colocar papel numa parede, algo que eu já estava procrastinando há meses e me pareceu uma boa coisa pra ocupar o tempo e a cabeça. Mas depois do almoço me deu sono e achei melhor ir dormir. Dormi, acordei, e fiquei enrolando na cama com preguiça de qualquer coisa.

Às 15:43 eu ainda estava na cama e mandei essa mensagem pro meu marido:

“Tô com muita cólica, talvez esteja começando. Mas relaxa, tô vendo se engrena”.

Alguns minutos depois a cólica forte passou. Ele nem deve ter dado muita bola pra mensagem, do jeito que a coisa tava indo e vindo nos últimos dias. E eu parei de dar bola pra cólica quando ela passou. Mais um dos milhões de alarmes falsos, que saco. Continuei deitada pensando em nada.

Às 16h15 sinto uma fisgada estranha bem embaixo na barriga. Lembrei da minha mãe descrevendo a sensação de quando a bolsa rompeu no meu nascimento, e parecia que era aquilo. Mas não teve ploc, não teve líquido jorrando, poça na cama, no chão, nada disso. No parto do André eu não conheci a sensação da bolsa rompendo, pois só quando a cabeça dele já tinha começado a sair a bolsa rasgou um pouquinho, então aquilo era novidade pra mim.

Levantei pra ver se saía alguma coisa, e fui ao banheiro. Parecia um xixi, mas meio esbranquiçado, turvo, cheiro parecido com água sanitária. A bolsa tinha sim rompido. Não fiquei muito feliz que tivesse sido fora do trabalho de parto, mas ok, ainda podia engrenar a partir dali. Liguei pro meu marido e avisei da bolsa rota, pedi que ele viesse pra casa assim que acabasse o expediente. Deitei mais um pouco pra ver se as contrações finalmente vinham. Eu sentia nada de dor, mas quando sentia a barriga endurecendo ficava com a mão ali até passar pra tentar cronometrar alguma coisa. Elas vinham bem irregulares, a cada 8, 9 ou 10 minutos, e duravam mais ou menos 1 minuto. Fase latente, na melhor das hipóteses. Só me intrigava não ter dor. No meu primeiro parto tive pelo menos cólica na fase latente. Avisei a fotógrafa, a enfermeira obstetra e a obstetra que me acompanhariam que a bolsa havia rompido mas que as contrações ainda estavam irregulares.

Numa das contrações, veio uma grande quantidade de líquido e eu achei melhor tomar um banho longo pra não ficar vazando pelo mundo, e quem sabe de quebra a coisa engrenava. Fiquei no chuveiro um tempão, e nada. Ainda no chuveiro, meu marido chegou em casa, veio ver como eu estava, e minha mãe também. Tudo bem, gente, tudo normal, ninguém se desespere, essa criança não vai sair daí tão logo. A água quente começou a ficar quente demais e me incomodar. Saí do banho e achei melhor comer alguma coisa e ficar um pouco com o André que tinha acabado de chegar da escola. Era 18h.

Fui comer o bolo que eu tinha feito no mesmo dia, que a minha mãe tinha apelidado de “Bolo Espera Melina”. Me pareceu propício, já que era exatamente o que eu estava fazendo naquele momento. Enquanto comia, aproveitava pra rebolar na bola de pilates e conversar um pouco com o André. Na bola, as contrações vinham com o mesmo intervalo longo de antes, um pouco mais fortes, mas eu ainda não chamaria a sensação de dor, era só um incômodo interessante. A enfermeira me ligou e eu disse que tinha evoluído pouco. Disse que ligaria quando se intensificassem.

Essas mesmas contrações começaram a me dar vontade de vocalizar. Agora tinha sim um pouquinho de dor. Quando eu vocalizava, o André ficava curioso com o que estava acontecendo, e perguntava sem parar “Mamãe? Mamãe?”. Quando a contração passava, eu sorria pra ele, ele sorria de volta e continuava a fazer o que estava fazendo.

Às 19h as contrações começaram a vir com intervalos de 4 minutos. Algumas contrações depois, 3 minutos. Mais algumas, 2 minutos. Meu marido ficou encabulado com a rapidez com que a coisa evoluía e começou a colocar tudo no carro. A enfermeira estava chegando à minha casa e ele quase pediu pra que ela voltasse e nos encontrasse na maternidade. Eu não quis, disse que queria que ela chegasse pra me avaliar, pra ver se tava na hora de ir, se não era muito cedo. Ele aceitou e eu achei graça do que eu falei. Algo me dizia que era tudo, menos cedo.

Quando ela chegou, um pouco antes das 20h, eu estava de quatro na minha cama, agarrada nos meus travesseiros, e não queria sair dali de jeito nenhum. Já não raciocinava muito bem. Por toda a gravidez eu imaginei parir bem ali, naquele lugar, naquela posição. Mas tínhamos decidido ir ao hospital por algum motivo, então eu teria que sair dali. Nem pedi um exame de toque, porque algo me dizia que se eu já não estava com dilatação total, estava quase. Preferi continuar com a dúvida do que com a certeza de que passaria o fim do trabalho de parto dentro do carro, nos 22 km que separam minha casa da maternidade. Ignorância é uma benção.

Ficar num carro em movimento em trabalho de parto era uma das coisas que me perturbavam nessa história de ir pro hospital. Como é que eu ia achar posição confortável ali dentro? Fiquei de quatro no banco traseiro do jeito que dava, ora agarrada no encosto, ora com as mãos no assento. A enfermeira ia se ajeitando no espaço que sobrava, e ainda conseguia colocar bolsa de água quente e massagear minha lombar, e tentar salvar o banco do líquido amniótico. Gente que respeita a posição da parturiente é uma coisa fantástica.

O caminho para a maternidade estava inteiro congestionado, como eu nunca tinha visto. Andar qualquer tanto levava uma eternidade. Ainda estávamos bem perto de casa quando me passou pela cabeça que eu não ia conseguir fazer aquilo. Ah, esse pensamento! O topo da montanha. O medo de se jogar de lá de cima. A fase de transição. Nessa hora, eu que estava de olhos fechados, abri os olhos e vi que meu marido andava no corredor de motos, colado num caminhão. Só consegui dizer que ele estava me deixando com medo! Pensei: medo dói, não quero ter medo. Fechei de novo os olhos e tentei esquecer onde estava. Quando as contrações vinham, eu tentava pensar que era uma a menos pra Melina finalmente nascer. Encará-las dessa forma ajudou, e eu consegui me acalmar um pouco.

Poucas contrações depois, surge um som de lá do meio do corpo, que me preenche e sai bem forte pela boca. Digo surge, pois ele tem vida própria, e faz vibrar cada célula do meu corpo, sem pedir permissão. O som que eu vocalizava tinha claramente mudado. Não podia ser.

A enfermeira me pergunta se eu estava sentindo vontade de empurrar. Eu não queria admitir, nem queria que meu marido escutasse, então só fiz que sim com a cabeça. Dou uma olhada onde estávamos, e me bate um desespero ao ver o trânsito completamente parado, e o quanto ainda estávamos longe da maternidade. Só consigo soltar um “ainda estamos aqui?” bem desesperado. Meu marido faz o retorno em algum lugar e vai procurar outro caminho.

Dali até a maternidade, acontecia uma luta interna em mim pra manter a tensão do trânsito e da distância da maternidade longe dos músculos que deveriam relaxar pra Melina poder sair. Era irônico pensar que depois de tanto dilema entre parto domiciliar e hospitalar, ela estivesse querendo um parto no carro! Não queria deixar nenhum desses pensamentos atrapalhar minha entrega ao expulsivo. Eu não queria que ela nascesse no carro, mas que assim fosse se tivesse que ser. Quando vinham os puxos, eu fazia de tudo pra deixá-los fazerem seu trabalho, apesar de todo o desconforto da situação.

Em algum momento, a enfermeira sugeriu que se ela estivesse pra nascer, era melhor estacionar o carro. Estava muito perto de nascer, mas eu queria continuar. Continuamos. Pensei em todos os planos pro trabalho de parto, nas comidas que eu tinha preparado pra comer, nos óleos de massagem. Não dava tempo pra nada disso, ela estava nascendo.

Não sei direito o que o meu marido fez, mas logo estávamos num trânsito mais tranquilo. A maternidade não estava mais tão longe. Consegui relaxar um pouco com a possibilidade de dar tempo de chegar.

Quando chegamos à maternidade, fotógrafa, obstetra e uma cadeira de rodas nos esperavam. A cadeira foi solenemente ignorada e os restantes foram tentar achar um canto pra eu parir. Sem internação nem nada. Enquanto isso, a enfermeira tentava sentir a cabeça da Melina pra segurá-la caso nascesse.

Não consigo lembrar bem pra quantos lugares fomos sem que pudéssemos ficar. Enquanto isso, eu ia tendo contrações em pé no elevador, nos corredores, e sentindo líquido escorrendo nas pernas. Até que chegamos à sala de parto e ali ficamos, eu de joelhos agarrada na maca. Parecia uma calmaria depois da tempestade, quase silêncio depois de tanto barulho de buzinas. Só um barulho chato de TV me tirava a concentração e eu pedi que desligassem. Umas duas contrações depois, tivemos que sair da sala. Acho que iam usar.

Fomos pra um quarto bem perto da sala de parto. A Melina estava bem ali, quase do lado de fora, e era difícil caminhar. Subi na maca do mesmo jeito que estava antes, e fiquei. Já dava pra ver a cabeça dela. Me perguntaram se eu queria sentir, e dessa vez, diferente do outro parto, eu quis. Quando encostei na cabeça dela, senti que ela voltou um pouquinho. Foi uma sensação curiosa. Algumas contrações depois, a ardência. O círculo de fogo. Faltava muito, muito pouco. Descansei um pouco depois dessa contração, ainda sentindo a ardência, e pensando que na próxima sairia pelo menos a cabeça dela, se não ela toda.

Veio a contração, e eu pude sentir cada pedacinho do corpo dela saindo de dentro de mim. Senti quando a cabeça terminou de sair, alguém puxou um pouco e eu gritei pra não puxar. Sentia o resto do corpo vindo, e perguntaram se meu marido queria pegá-la. Fiquei muito feliz quando ele quis, apesar de não estar vendo nada, com a cara enterrada na maca. Senti os ombros, os braços, as pernas, os pés. Às 21h05 ela saiu inteira e logo chorou. E eu tive de novo o privilégio de experimentar a sensação indescritível e maravilhosa que é parir um bebê. Eu tinha conseguido! Depois de tanta coisa que passamos juntas, ela estava ali, chorando, amparada pelo pai, recebida por uma equipe que respeitou nosso momento. Era tanta satisfação que eu não consegui voltar a mim imediatamente. Fiquei um tempo curtindo essa sensação tão única, e me permitindo voltar lentamente de onde quer que eu tenha ido pra trazer a Melina pra esse mundo. Até que senti vontade de voltar à realidade, conhecê-la, pegá-la, senti-la. Me ajudaram a me deitar, e passá-la entre as minhas pernas para que viesse pro meu colo.

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Como era linda, rosada e perfeita! Eram 3,460 kg e 50 cm de um pouco da perfeição do universo. Ficamos nos curtindo, e o clima no quarto era de muita alegria. Ofereci o peito a ela, e ela pegou, sugou com vontade. Naquele momento, eu senti que não precisava de mais nada, que felicidade era aquilo.

Quando comecei a sentir as primeiras cólicas que indicavam que a placenta queria sair, a Melina já tinha nascido há uns 40 minutos e mamava, e eu pedia a ela que me ajudasse a chamar a placenta. Vinham cólicas, vinha vontade de empurrar, e não vinha placenta. Fiz xixi pra ver se a bexiga cheia não estava atrapalhando, e ainda nada de placenta. Até que veio sangue, mas não placenta. Veio ainda mais sangue, e sem sinal da placenta. E então veio uma molezinha chata, que eu reconheci do outro parto. Ali eu percebi que as coisas não estavam bem, e que ia continuar vindo sangue, sangue, sangue, e nada de placenta.

A Melina ficou com meu marido, acompanhado da fotógrafa, e pro restante da equipe começou uma correria pra me levar pro centro cirúrgico. Já no centro cirúrgico, outra correria pra pegar minhas veias. Ainda tentavam tirar a placenta, que não vinha, e eu só pedia pra me fazerem dormir. Não queria que nenhuma lembrança daquele momento me tirasse a sensação deliciosa que eu ainda carregava do parto.

Dormi e acordei na manhã seguinte, entubada. Pensa numa agonia grande. Agora multiplica por um milhão. A sensação de estar entubada consciente é quase isso. Eu queria chamar alguém, mas minhas mãos estavam amarradas, e eu não tinha como falar. Me debati como pude e alguém veio ver o que estava acontecendo. Só me diziam que iam tirar o tubo e não tiravam, que eternidade com aquilo na garganta! Finalmente tiraram e eu pude falar alguma coisa. Me disseram que me deixariam desamarrada se eu não tentasse arrancar mais nada. Disse que não ia tentar fazer isso. Perguntei pela minha filha, disse que ela precisava mamar. Bem pacientes, me disseram que ali era uma UTI e ela não podia ficar, e que ela estava com meu marido e recebendo fórmula.

Acho que essa parte da fórmula foi a mais triste de todas. Amamentar pra mim era muito importante. O André, com seus dois anos de vida, nunca soube o que é fórmula. Foi amamentado exclusivamente até os seis meses , mesmo com meu retorno ao trabalho antes dos cinco meses dele. Continuou mamando até os dezoito meses, e parou sozinho na gravidez. E ela, agora, em suas primeiras horas de vida já sabia o que era fórmula. Não tinha leite materno, peito, colo de mãe. Muita coisa passou pela minha cabeça ali. Tive medo de não ter leite por falta de estímulo das mamadas, tive medo dela esquecer aquela pega maravilhosa de logo depois do nascimento, e tive medo também do contato precoce com leite de vaca desencadear APLV. Mas ali não tinha mais nada que eu pudesse fazer. Regra da maternidade: não temos controle de nada. Eu estava viva, pelo menos. Poderia demorar, mas íamos nos encontrar.

Levou um tempo pra que eu soubesse onde estava de verdade. Eu estava em outro hospital, não mais na maternidade. A maternidade não tinha UTI para que eu fosse monitorada, então me transferiram, e a Melina ficou com meu marido lá. Mais um item pras aventuras do nascimento da Melina!

Começaram então horas intermináveis de tédio. Apesar de ter coisas penduradas e enfiadas em infinitas partes do meu corpo, eu me sentia ótima e queria sair logo dali, mas não podia. Não tinha nada pra fazer. Cheguei ali sem roupa, sem óculos, sem celular e sem poder contar pra ninguém que eu tinha parido. As horas foram um pouco preenchidas com as visitas que recebi. Meu marido ficou um bom tempo comigo. Me contou da primeira noite da Melina, que ela tinha um suspiro como o do irmão quando dormia, que tinha uma mecha loira nos cabelos, e como tinha sido o encontro do André com ela. Achei uma droga que eu estivesse perdendo tudo isso, mas fiquei feliz de ela poder estar com meu marido, e naquele momento com a minha mãe, que também cuidava do André. Recebi também a visita da obstetra, que me disse que eu tinha dado um susto em todo mundo. Me explicou que eu havia perdido muito sangue, o que deixou meu quadro muito ruim. Ainda recebi a visita da enfermeira que me acompanhou no parto, e que ordenhou colostro para levar para a Melina. Saber que, apesar de tudo, ela receberia o colostro que era dela me deixou um pouco melhor.

No domingo pela manhã, após mais ou menos 36 horas longe da Melina, tive alta da UTI e pude retornar à maternidade. Me preocupou muito pensar que poderíamos ter dificuldade de estabelecer um vínculo depois das primeiras horas da vida dela separadas, mas estava confiante de que ter passado boa parte da “hora de ouro” com ela, com contato pele-a-pele e amamentação após o nascimento, pudessem ter nos marcado como uma da outra. Quando cheguei ao quarto ela estava dormindo, bem tranquila e usando uma roupinha amarela. Logo reparei que os cabelinhos dela, depois de lavados, eram arrepiados como os meus quando bebê. E ela era linda, mesmo já tão diferente da criaturinha molhada que segurei após parir.

Aproveitei para me arrumar como dava e tirar o aspecto de UTI para esperá-la acordar. Quando ela acordou, falei com ela e foi emocionante perceber que o som da minha voz ainda a fazia parar de chorar! Ofereci o peito e ela mamou como se nunca tivéssemos nos separado, como se nunca tivesse conhecido um leite com gosto estranho numa seringa dura. Aquilo foi suficiente pra me fazer sentir completamente realizada! Nenhuma lembrança das complicações das últimas horas era mais forte do que os planos da natureza, que havia criado entre nós um vínculo tão forte que sobreviveu a tantas horas de separação. Naquele momento eu tive ainda mais provas do poder do parto natural, e da necessidade de respeito aos primeiros momentos entre mãe e bebê para que ocorra esse amor à primeira vista tão poderoso que nos fazia estar juntas como se nada tivesse acontecido.

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Nosso reencontro

Uma semana após o parto, ainda vivenciando uma apojadura tardia, eu tinha tanto leite que com poucas ordenhas de alívio consegui encher e doar um frasco grande que tinha guardado da última vez que fiz doação ao banco de leite. Numa semana eu jorrava sangue, na outra leite. A vida prevalecia!

Apesar de toda essa aventura, tenho apenas lembranças boas do parto da Melina, e não me canso de pensar em como nossas escolhas foram importantes para que, da melhor forma possível, o desfecho fosse positivo. Todos os acontecimentos da gestação me ajudaram a criar poucas expectativas e a estar preparada para a página em branco que a chegada dela trouxe, mesmo quando ela ainda era um projeto de ser que nem habitava a minha barriga. Depois de tudo, a única dúvida que resta, e cuja resposta bem lá dentro eu conheço, é: como continuar vivendo a mesma vida depois que se ganha outra?


Gostaria de agradecer imensamente a todas as pessoas que participaram dessa nossa história e que nos deram o suporte necessário pra que tudo fosse tão bom. Mil obrigadas especiais à Equipe Hanami, em particular à enfermeira Joyce, que tanto nos apoiou desde a gestação, parto e pós-parto do André, passando pelos preparativos e dúvidas antes da gestação da Melina, até todo o desenrolar dos planos do parto dela, no parto e pós-parto; à fotógrafa Natalia Brasil, que registrou essa gestação e parto com muita sensibilidade e se mostrou uma profissional muito humana com suas preocupações com nosso bem estar no pós-parto; à Dra. Roxana Knobel, que respeitou nossas decisões sobre o parto, sempre com foco nos nossos desejos, e lidou com as intercorrências com muita transparência e pensando no que seria melhor para nós. Ao meu marido e à minha mãe, todo o meu amor por terem se desdobrado para cuidar dos meus pequenos nas minhas ausências, e de mim na minha recuperação.

34 semanas

No dia em que eu e a barriga completamos 34 semanas, acordei com a sensação de que estava diante de uma bifurcação, de uma escolha entre duas possibilidades. Era como se, a partir dali, duas histórias diferentes pudessem ocorrer, e eu pudesse fazer algo para escolher qualquer uma delas. Quais seriam, eu não sei. Só sei que a sensação de parar diante do desconhecido era bem forte, tão forte quanto no ciclo em que engravidei. Talvez até tão forte quanto a estupefação da fase de transição do trabalho de parto. Senti que precisava fechar os olhos e me atirar, mergulhar, sem saber aonde ia, mas com a certeza de que chegaria a algum lugar.

Até então, a incerteza era a minha certeza. Escolhi que fosse assim. Escolhi vivenciar a gestação sem a influência de certezas externas, ouvindo apenas o que vinha de dentro de mim. Por todo esse tempo, funcionou; foi incrível e mágico lidar com essa incerteza. Porém agora, diante desse grande desconhecido, senti que precisava de algo para seguir em frente. Veio de dentro de mim essa necessidade de ouvir meu lado racional. Até esse momento, eu tinha sido quase só emoção, algo tão inédito pra mim. Mas não posso negar minha razão, sempre tão forte e presente. A razão que quer provas, certezas, afirmações. A razão que precisa da segurança de algo concreto para aceitar algo desconhecido. Aceitar essa minha necessidade foi me aceitar, respeitar a minha natureza e meus desejos.

Nessa onda de pensamentos, me lembrei daquele papel. Do pedaço de papel cortado do exame de ultrassom morfológico, que mostrava se na barriga havia uma menina ou um menino, a imagem que eu pedi para que a obstetra separasse das demais e guardasse num envelope para não correr riscos de descobrir o sexo do bebê acidentalmente. Decidi e aceitei que naquele dia eu precisava da certeza que ele continha.

Não sabia se meu marido entenderia o momento que eu estava passando, mas já tinha decidido que, sozinha ou com ele, eu abriria mão de descobrir o sexo do bebê no nascimento, e veria naquele dia. Seria muito difícil pra mim fazer isso sozinha, mas eu queria e precisava, caso ele não quisesse fazer comigo. Ele entendeu tudo mesmo sem eu explicar. Veríamos então, juntos, naquela noite, com calma, quando nosso filho mais velho estivesse dormindo.

Mais tarde, chegou a hora. Peguei o envelope, e tirei de dentro o papel dobrado. Estávamos nós dois juntos, sentados lado a lado, eu com o papel na mão, sem conseguir abrir. Me deu um pavor do encerramento daquela história de 34 semanas, bem ali, naquele momento. A partir dali, ter a certeza do sexo poderia mudar todas as nossas perspectivas com a vivência daquela gestação de bebê surpresa. O bebê não seria uma incógnita. Ele teria nome, planos, expectativas. Tudo isso acontecer assim que eu desdobrasse aquele papel me deixou completamente sem ação. Não consegui, e meu marido pegou o papel e abriu.

A imagem era confusa, e as letras que registravam o sexo eram muito pequenas. Levamos alguns segundos pra conseguir compreender o que estava ali. Vimos quase juntos: XX.

Era a nossa Melina que estava ali. Nesse tempo todo, incógnita, ela nos acompanhou sem que soubéssemos que era ela. Todas as minhas certezas de 34 semanas vieram à tona, começando com a certeza de que aquela linha rosa fraca, quase invisível, naquele teste de gravidez feito 30 semanas antes, evidenciava que eu gestava uma menina. Todo o tempo eu soube, carreguei uma certeza latente que não quis expor, porque não era científica. Não importava mais. O que importava agora era que, às 34 semanas, encerrava-se a gestação do Segundinho, e começava a gestação da Melina.

Aqui fora está tudo pronto para a sua chegada, Melina. Preparamos pra você uma recepção sem distinção de gênero, sem saber que você era você. E foi maravilhoso poder pensar num bebê como um bebê, sem necessidades específicas de gênero. Agora, livres desses conceitos, podemos pensar em você, apenas em você. Ainda temos algumas semanas pela frente pra nos conhecermos, antes de finalmente nos encontrarmos. Tenho certeza de que serão semanas memoráveis, sobre as quais conversaremos muito algum dia.

Duas gestações

Uma coisa que me perguntam bastante é se essa gestação está sendo diferente da primeira. Acho super curioso como cada gestação é única, cada bebê é único, e como cada momento da vida em que a gestação ocorre também tem suas particularidades. Por isso, fui fazendo uma lista (amo listas!) das semelhanças e diferenças de cada uma. Hoje, iniciando o terceiro trimestre de gestação, quis compartilhar e registrar :)

Semelhanças

A barriga cresceu :P

Tive preferência por comidas salgadas ao invés de doces

Tive preferência por carne vermelha e pouquíssimo apetite pra frango

André e segundinho foram concebidos em épocas bem próximas, com 2 anos de diferença. Desconsiderando o ano, a DUM das duas gestações tem 1 dia de diferença, e as DPPs têm 9 dias de diferença.

Senti os primeiros movimentos do bebê mais ou menos na mesma época, por volta das 20 semanas.

Diferenças

Na primeira, xixis infinitos de madrugada, desde antes de saber que estava grávida. Na segunda, noites inteiras dormidas até depois das 20 semanas (graças aos céus!).

Na primeira, sem enjôos, só leves indisposições. Na segunda, enjôos matinais diários da 7ª à 11ª semana (ainda bem que passou, deusolivre passar por essa parte de novo. Já imaginou passar 5 semanas calculando a distância do banheiro mais próximo e o quanto você precisaria correr pra chegar a tempo, e tendo que tocar a vida numa boa, ir pro trabalho, levar filho na escola, como se não estivesse acontecendo nada? Não queira.).

Na primeira, sono imenso o dia IN-TEI-RO no primeiro trimestre. Na segunda, sono praticamente como antes de engravidar (já não muito em dia com um bebê em casa).

Na primeira, muita sensação de cansaço, mesmo no segundo trimestre. Na segunda, após passarem as náuseas do primeiro trimestre, muita disposição e energia.

Na primeira, cadê espinhas? Na segunda, cadê rosto sem espinhas (pelo menos até por volta da metade da gestação)?

Na primeira, todos os sutiãs deixaram de servir antes do segundo mês de gestação. Isso não aconteceu na segunda.

Na primeira, azia desde sempre e pra sempre. Na segunda, jura que tem grávida que tem azia?

Na primeira, dores absurdas no ciático. Na segunda, de boas até agora (mais graças!).

Na primeira, cólicas monstruosas até a 10ª semana. Na segunda, cólica, oi?

Na primeira, ovulei pelo ovário direito. Na segunda, pelo esquerdo.

Na primeira, tive placenta posterior. Na segunda, anterior.

Na primeira, fiz incontáveis ultrassons (acho que uns 12). Na 12ª semana já estava fazendo o quarto ultrassom, e vieram muitos outros. Na segunda, fiz o primeiro ultrassom com 13 semanas de gestação, o segundo com 24, e por enquanto nenhum outro ultrassom está previsto.

Na primeira, a ansiedade me roeu pra saber o sexo do bebê. Com 12 semanas tivemos um chute, e com 16 a confirmação. Na segunda, já engravidei com planos de só descobrir o sexo no nascimento. Mas no ultrassom de 13 semanas o médico disse que deu pra ver (e nos avisou para não olharmos).

Na primeira, não tive sangramento de nidação, mas tive alguns escapes até umas 10 semanas e usei progesterona por precaução (provavelmente desnecessariamente). Na segunda, tive sangramento de nidação e não tive outros escapes.

Na primeira, eu era a definição da grávida sem vaidade. Qualquer roupa que servisse tava ok, o cabelo ficava de qualquer jeito, passei mais da metade da gravidez sem nem lembrar que existe esmalte. Nessa tá rolando bem mais vaidade.

Na primeira, eu tinha desejos repetitivos por sorvete. Ah, sorvete. Na segunda, não notei nenhum desejo a não ser as preferências que já citei.

Na primeira, fiquei meio não querendo cheiros fortes. Parei logo de usar qualquer produto com cheiro. Na segunda, tô achando uma coisa bem deliciosa sentir uns cheirinhos bons.

Na primeira, fome. Muita fome. Na segunda, fome como antes de engravidar, se não menos.

Na primeira, ficava facilmente mal humorada. Na segunda, não notei nenhuma diferença no humor.

Na segunda, a barriga apareceu antes e ficou maior em períodos equivalentes da gestação.

Na primeira, fiz um teste de gravidez de farmácia que deu negativo (com 4 semanas de gestação). Uma semana depois, repeti o teste e o positivo veio quase instantaneamente (5 semanas de gestação), com a segunda linha do teste bem forte. Na segunda, o primeiro teste que fiz já deu positivo (4 semanas de gestação), mas com a linha tão, mas tão, mas tão fraca que dava pra duvidar que ela estivesse lá.

Curiosidades

André mamou até as 15 semanas de gestação do segundinho, por 1 ano, 6 meses e 4 dias. Mamou pela última vez em 25/09/2014, na sala de espera para consulta com a pediatra, e depois disso nunca mais pediu.

Quando estava grávida do André, sonhei que ele nascia numa determinada data (que não foi a que ele nasceu). A DPP do segundinho é nessa data que eu sonhei.

Se for menina, segundinho já tem nome desde antes de eu engravidar. Se for menino, ainda não tem, e a novela pra escolher esse nome tá longa.

Engravidei do segundinho no meu primeiro ciclo ovulatório pós-parto. Foi uma gestação planejadíssima, esperada por meses.

“Se você quer remar conta a maré, tem que arcar com as consequências disso”

Com essa frase se encerrou a minha história de busca por um parto respeitoso. Foi uma história bonita de acontecimentos doces, mas com repercussões que não me deixaram esquecer que a realidade ainda é ácida.

Enquanto ainda gestava meu primeiro filho, conheci a medicalização do parto, a retirada da autonomia da mulher, a objetificação de seu corpo como mero contêiner de bebês. Conheci o tratamento desrespeitoso que mães e bebês recebem em maternidades no momento no nascimento, e quis fugir disso tudo. E fugi. Não me submeti a uma instituição, não abri mão da minha autonomia na hora do parto, não aceitei o modelo de assistência ao parto que é oferecido nas maternidades. Essa foi a maré contra a qual remei. E essa frase do título, que ouvi quando precisei, dias após um parto domiciliar, de uma assistência pós-parto em uma maternidade, significou, sobretudo, que as consequências de se remar contra essa maré são não poder exigir apoio e respeito do sistema contra o qual se lutou… especialmente quando se lutou. Eu não poderia pedir respeito numa instituição de assistência ao parto sem que suas regras me fossem impostas.

É disso que se fala quando se fala em violência obstétrica. Há regras no modelo de assistência obstétrica consolidado atualmente e que, quando contestadas, são violentamente impostas a mulheres e seus bebês. As marcas dessa violência permanecem para sempre, e são frequentemente a causa de insatisfação com a experiência de parto. Esse fato chamou a atenção da Organização Mundial da Saúde, que recentemente divulgou uma declaração chamada “Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde”. É extremamente importante que essa declaração seja divulgada, debatida e conhecida, para que atinja o maior número possível de pessoas. Ela oferece respaldo para que as mulheres exijam das instituições o respeito que merecem ter em seus partos, e é um marco fundamental na mudança da realidade obstétrica mundial.

A declaração em Português está disponível aqui.

Em outros idiomas, pode ser encontrada aqui.

Apenas com a participação popular na difusão dessa informação teremos não mais uma maré de violência obstétrica, mas sim de respeito e bons tratos disponíveis a todos na assistência ao parto. Leiam, divulguem, exijam um tratamento digno com mães e bebês de seu convívio.

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Por que eu quero saber o sexo do bebê que carrego só quando ele nascer

Quando o André nasceu e eu o peguei no colo pela primeira vez, a primeira coisa que falei foi: “Oi, André!”. Nesse momento, a enfermeira que o segurou e me entregou quando ele nasceu disse pra mim: “Confere se é o André mesmo”. E ali, com essa sugestão, no meio daquela onda de sensações e compreensões da vida, do universo e tudo o mais que acontece naquele momento exato em que você vê seu bebê pela primeira vez, eu entendi que não fazia o menor sentido saber o sexo dele antes do nascimento. A medicina é maravilhosa e a tecnologia é uma coisa linda (sou engenheira de controle e automação, gente!), mas independente dessas coisas o bebê vai ser o que bem entender; exame nenhum vai escolher isso por ele. E, pronto, ali decidi que não ia querer saber o sexo do meu próximo filho antes dele nascer.

Depois disso, a ideia foi se consolidando e tomando forma com diversas outras considerações. Por que as pessoas precisam saber o sexo antes do nascimento? Pra dar nome? Se é tão importante assim escolher antes, escolha um para menino e um para menina e seja feliz. Pra fazer o enxoval? Um bebê é um bebê, não precisa de distinção de gênero nas suas vestimentas. Pra decorar o quarto? Aposto que o bebê vai ligar pouco para a cor das paredes. Quem sabe quando ele crescer um pouco ele mesmo possa escolher o que o agrada? Pra responder aos curiosos a famosa pergunta “é menino ou menina”? Se não souber o que responder, responda: “sim”. Simples e logicamente correto. Por que você quer? Bom, essa é legítima. Se você quer, você quer, não precisa explicar. Se eu não quero, eu não quero, não preciso explicar também. Apesar disso, quero falar como tem sido pra mim lidar com essa perspectiva.

O simples fato de, mesmo antes desse bebê existir, aceitar esperar que ele nasça para conhecê-lo cara a cara, pele a pele, coloca todas as outras coisas em posições bem diferentes comparadas à minha primeira gestação. Na primeira gestação, eu era a ansiedade em pessoa. Vi dois risquinhos no palito e já queria saber o sexo. Não dava. Fiz ultrassom com 5 semanas, e queria ouvir o coração, não dava. Fiz ultrassom com 7 semanas e ouvi o coração, e quis ver o bebê mexendo, não dava. Com 9 semanas, fiz outro ultrassom, e vi o bebê mexendo, mas não dava pra ver o sexo! Com 12 semanas fiz outro ultrassom, e, bem, dava pra chutar o sexo, mas pra ter certeza, não dava. Com 16 semanas deu pra ver, era um menino! Mas e o rosto, como será que é? Vai ter o cabelo da mãe ou do pai? E por aí vai. Perceberam como as coisas estavam sempre no futuro, longe de mim, num lugar a que eu nunca chegava? O bebê estava na tela do aparelho de ultrassom, o coração batia na caixa de som… e me esqueci que o bebê estava dentro de mim, que seu coração batia dentro de mim, e eu melhor do que ninguém poderia conhecê-lo. Agora, com esse bebê, estou vivendo no presente. Não estou ansiosa pelo próximo (e primeiro) ultrassom, para ouvir o coração, para ver um borrão de bebê numa tela de TV de um consultório escuro. Esse bebê eu vou ver quando nascer; não preciso vê-lo antes da hora. Mas sentir, já sinto. Hoje, aqui, agora, no presente. Já sentia antes de ver os dois risquinhos. Já sentia até antes de engravidar, se quiserem acreditar. Sinto que se desenvolve, sinto que seu coração bate, mesmo que eu não escute. E estou permitindo que se desenvolva no seu tempo, com o mínimo de violações em seu lar escuro. Aqui fora, vou preparar o mundo para ele, para o que ele for, com as cores que eu sentir que ele vai gostar, independente do que determinam ser adequado para um gênero ou outro.

Desenvolva-se no seu tempo, bebê, e quando você vier, venha sabendo que você pode ser o que você quiser.

A folha (não mais) em branco

(Fonte: Google knows)

(Fonte: Google knows)

Parei diante de uma folha em branco com o sentimento de que algo ainda disforme queria ser escrito. Encarei a folha, ainda branca, por minutos, até concluir que não tem nada mais assustador que uma folha em branco. Não precisei nem terminar o pensamento pra lamentar quantas folhas em branco deixei de admirar por temê-las. Porque, ao contrário de assustadoras, elas são essencialmente lindas, pelo simples fato de que não são absolutamente nada mas podem ser qualquer coisa. Assusta ter tanta possibilidade em tanta rotina, tanto controle, tanta certeza.

Isso serve pra escrever ou parir, tanto faz. Não nasce vida numa folha já escrita. Não nasce vida naquela folha de agenda com linhas finitas que terminam à meia noite. A vida não nasce enquanto se tem medo da folha em branco. Enquanto se tem medo de sujá-la de sangue e fluidos, não nasce nada.

Um dia, com esse mesmo sentimento disforme de que algo tinha que ser escrito, peguei uma folha em branco. Hoje, já não mais branca (e ainda mais linda), a folha terminou com as manchas vermelhas de uma vida que morre pra renascer. Peguei outra, juntei à primeira, e estou aqui, admirando o tudo e o nada. Que ela seja branca por muito tempo, ou não. Não importa. Mas que ela seja.

 

(Escrito em 04/06/2014)